02/05/2012
De todas as coisas que não te contei, tu que és sol e estrelas- sopro frio que arrepia - tu que és sabor e aroma, amor-em-mim e minha-primeira-morte, meu nome, meu norte- o que mais pesa é a falta da tua voz, o passar das horas, a dor adormecida. Quantas vezes te quis empurrar, quantas vezes foste mar de raiva, despedida. Guardo esse gesto suspenso, perdido na memória esquecida. Que parvas são as palavras, que pequeno é o tempo. De todas as coisas que não te contei, de tudo o que não quiseste saber ...
09/04/2012
laranjas
Imagina uma laranja. Suculenta, brilhante e madura...doce, perfeitamente redonda, perfeitamente opulenta. Agora esquece-a, brinca ao faz-de-conta-comigo, e apaga o seu aroma, a sua textura, aquela cor que cega e cegou, as curvas, o corte e o sumo nas tuas mãos pouco antes de a devorares com a tua boca roxa e sedenta, dela, de tudo e de nós. Guardar, o acontecer, o aquilo, o entre espaço, a exclamação o bem-querer. Palpita com os olhos, segue os passos, o cardume, a frescura, tenta perder...
É sempre o fim que nos começa, o princípio que nos termina. Se fomos nada e o nada não presta, porque me faltas tanto entre as ossadas, entre as sombras e os desenhos do fumo que solto por entre os dentes cerrados em raiva. Fodeste-me tanto. Por entre as páginas vamos somando, os sonhos e os gestos amargos, mudamos os quadros, os lençóis e as lições, e cada vez mais, somos cada vez menos em crescente. As rodas, o acelerador, cada mudança em força, comendo quilómetros e palavras soltas, apertando nas curvas com a adrenalina no ventre, e descer, deixar cair o peito ao asfalto como dois amantes em pânico e em espera, uma troca de nomes suspensa, beijos lançados ao vento lento... Se fomos couro, se somos sede, peixes sem água em agonia tremenda. Não querer viver assim porque é bom de mais e aterra. Uma chamada que não chega, uma janela com vista para o sul, memória sem norte, maravilha a lume brando. Um vinho rústico, as pedras coladas em ti, uma a uma decorando o teu vulto, o boneco imaginado da ausência. Que pensarás de mim se pensas, agora que me assistes como filme em pó, a preto e branco e cheio de cinzentos coloridos de arroz e carmim? A secura nas cordas da garganta, os cabelos fuscos, enferrujados e dispersos, o que fiz do que não fiz feito e feitio? Os momentos perfeitos ficam tão raramente registrados que a imaginação sempre estraga na volta. Como aquela infância que os outros contam como nossa, que não existe para além dos caixotes cheios de cartas e fotos amarelas e gastas, sem o riso, nem as corridas ou as bonecas de pano bordadas. Um dia, esse dia que não basta e que não chega nunca, esse dia de alvorada, cavalos negros, fogo na garganta, silêncio no ser. Vibras em mim e não morres, como o amor, e as coisas parvas, e os bilhetinhos nas calças, o gelado de verão a derreter. Tantas laranjas, suculentas e brilhantes, maduras tirando ao doce, perfeitamente redondas e opulentas que não chegaram a nascer.
03/04/2012
Flores roubadas
O meu peito tem um rio de pedras brancas, que deslizam como
o frio nos meus lábios, e sussurram o vazio, já não resta nada. E o dia vai
correndo, numa dança de sol e sal, e a calma não se cala e os meus olhos são
ponte de mar até ti, a tua casa é um quarto cheio de estrelas, memórias
gigantes, tardes dispersas. Fugindo de nós, as conchas e os sonhos, tocam-se em
segredo, banhadas em instantes brevemente mortos que vibram, levantam o chão da
tua estrada, esse fio sem fim difuso e estreito. E quando me tocas, levas
contigo o meu riso, serenamente levas-me a um lugar que nunca vi, entrelaçados
em sangue. Somos uma bolha de vontades preste a rebentar, sem poder, com
querer, pele arrepiada de recortes, um querer querer-te para mim, em mim,
comigo, encerrar o que foi com a chave do teu brilho, ofuscar o olhar com um
flash e ser amada, inteira, tanto andar, desenhar-te numa rua que já é nossa,
ensinar-te a beijar o que não terás,
enfim….A voz já não conta e já não chega, uma rede no céu que nos apanha, um
rasgão na poesia das tuas palavras.
spooky
É bom apertar-te contra mim e adormecer sussurrando, comer a
tua pele docemente, abraçar os teus olhos- querer-te tanto; molhar os olhos que
se ofuscam com a beleza do momento. Descobrir-te de novo, entregar o riso,
acariciar o teu esqueleto despido, desenhar-te com beijos, com palavras soltas,
com menos medo. Salgar contigo, deixar pegadas nos teus segredos, respirar a
tua voz, misturar-me nos teus dedos, empurrar-te sem te soltar, soltar-te para
voltar, contar cometas nos teus lábios.
26/12/2011
05/11/2011
04/11/2011
Há uma melodia na tristeza, que me embala noite fora, uma cabeça às voltas, um coração que não deixa. Dias em que o ontem ultrapassa o amanhã, olheiras nos saltos altos, unhas cravadas na almofada, um sussurro adormecido, uma estrada cheia de tudo, um sentido proíbido, alí onde mora o que já foi, o que não sei, o que vivi contigo. Curvas indiscretas, o guardar para dentro o que esconde o vestido, vingar as madrugadas num copo cheio de vinho, derramar as palavras, rumar sem caminho. Perder o desatino num caixa pandora, magia dispersa, uma mesa, uma nódoa, sem contar as certezas, sem dançar o agora.
11/09/2011
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